O povo do campo vive da terra, tira dela seu sustento. Por isso, é fundamental saber como aproveitar o melhor dela, da maneira mais eficiente, sem causar danos ao meio ambiente. Esse conhecimento precisa estar ao alcance das agricultoras e dos agricultores para que possam sustentar suas famílias de forma digna. Focando nesse objetivo, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Alto Xingu, através do Projeto Terra Roxa, está realizando de forma experimental a implantação do Sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Sistema PAIS) em alguns lotes familiares da Terra Roxa. Trata-se um modelo de produção baseado na preservação ambiental, evitando o uso de agrotóxicos e outros meios que prejudiquem a natureza, resultando em alimentação saudável para a família de forma econômica e ecologicamente sustentável.
O processo de instalação desse experimento agrícola foi iniciado ainda durante o mês de março, quando os materiais necessários para construção foram levados até a Comunidade. Por ser um período muito chuvoso na região, o trabalho acabou sendo bastante difícil, com as estradas vicinais complicando o acesso ao local. Depois disso, começou a construção das estruturas físicas do sistema propriamente dito – composto por um viveiro de aves ao centro, cercado por uma horta e pelo sistema de irrigação por gotejamento – que foi feita em mutirão, reunindo moradores e técnicos da CPT.
Neste primeiro momento, cinco famílias estão recebendo o sistema. Elas foram selecionadas seguindo alguns critérios técnicos, como possuir acesso à agua próximo ao local, ser integrante da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Terra Roxa, ter participação ativa nas pautas da Comunidade e demonstrar cuidado com as questões agroecológicas na produção de alimento sustentável, seguindo corretamente a legislação ambiental no seu lote. Além disso, foram priorizados os chamados pioneiros – aquelas famílias que estão na região, lutando pela terra e por trabalho digno, desde o inicio da ocupação.
De acordo com o técnico em agropecuária da CPT, Emanuel Castro, o objetivo central desse sistema integrado de avicultura e horticultura é garantir a segurança alimentar das famílias envolvidas. “Esse experimento tem a intenção de ser algo voltado mais para a subsistência familiar, para o consumo da família. Claro que a gente tem o objetivo que ele gere também excedentes. E esse excedente a família possa comercializar. Mas a principal intenção do sistema é o fornecimento de alimentos sustentáveis, tanto as hortaliças, como os ovos das aves. Além da própria ave, que é uma fonte de proteína. Então, a família que tem esse sistema vai estar amparada, vamos dizer assim, com fontes de alimento. Ela tem ali um local destinado para isso. E acaba que ela diminui a necessidade de estar comprando nos mercados que ficam longe da comunidade”, explica o técnico. Lembrando sempre que garantir que as famílias consigam obter o sustento dos seus próprios lotes reduz a necessidade de oferecer mão de obra para os latifúndios da região – onde podem, muitas vezes, ser submetidas a trabalho em condições precárias. Portanto, a segurança alimentar é um dos pilares fundamentais na busca pelo trabalho digno e contra as condições de trabalho análogas à escravidão.
O primeiro sistema a ficar pronto foi no lote da família de Linda Inês e Idelfonso de Souza, que reside muito próxima à escola da Comunidade. Por esse motivo ela é considerada a unidade demonstrativa do projeto, onde serão realizadas as atividades de formação sobre como gerir o sistema integrado. Também estará disponível para que as demais famílias conheçam o funcionamento na prática. Além disso, quando a produção de hortaliças no lote estiver avançada, a intenção é que o excedente da família seja fornecido diretamente para os alunos da escolinha local.
A família Souza depende do plantio do cacau para obter sua renda, ficando a mercê das altas e baixas da safra. Por isso, os moradores consideram que essa está sendo uma grande oportunidade para melhorar sua condição econômica. “Vai beneficiar em muitas coisas. Primeiro porque é uma aprendizagem nova, que eu já vi em outros assentamentos, em outras formas de experimento. Mas para nós aqui vai beneficiar muito, valoriza mais a nossa região, não só o meu lote, mas a região também, porque não são todos que têm esse projeto aqui”, opina a senhora Linda Inês. A moradora salienta também que os técnicos ensinam todos os procedimentos com muita clareza e agradece pela paciência deles com os agricultores. “Eu só tenho a agradecer pela paciência, explicam tudo e, quando a gente tem dúvidas, a gente manda mensagem pra eles. Tiram as dúvidas, explicam direito pra gente, graças a Deus.”
A instalação do sistema ocorre nos lotes de apenas cinco famílias, pois se trata de um projeto experimental. O planeamento é que, conforme esse primeiro grupo for solidificando seu funcionamento, fazendo ajustes e apresentando resultados, outras famílias sigam o exemplo. Não apenas na Terra Roxa, mas também nas comunidades vizinhas. “E se acontece essa difusão pela região, acreditamos que seria muito interessante”, afirma o técnico da Pastoral. “Várias comunidades, que são distantes da sede do município, passam também por dificuldades na questão alimentar. Então, teria um grande impacto para a região, para essas famílias que têm dificuldades. Por estarem distantes e também não terem acesso a fontes de alimentos saudáveis, como as verduras, que são fontes de vitaminas, minerais, proteína. Então, é algo que seria muito bom se acontecer isso, vai ser um excelente resultado.”, salienta Emanuel.





