Feira de troca de sementes e mudas com festa da mandioca encerra atividades do Projeto Terra Roxa

Os povos tupis contam uma antiga lenda amazônica sobre uma jovem menina chamada Mani. Segundo a lenda, ela era silenciosa e tinha uma pele muito branca, destoando do tom acobreado dos seus conterrâneos.

Um dia, ela subitamente morreu de uma doença misteriosa e foi enterrada por sua família dentro da casa onde morava. Com muita tristeza, sua mãe chorava todos os dias sobre o local. Até que uma planta começou a brotar, uma planta diferente de todas aquelas que os tupis conheciam.

A raiz era tão grossa e forte que rachou a terra. Quando colhida e descascada, era muito branca, como a pele de Mani. A mandioca que nasceu do corpo da menina logo se espalhou por toda a região, servindo de alimento para todo o povo tupi. E nunca mais houve fome.

– A Lenda de Mani: o surgimento da mandioca.

A Lenda de Mani abriu a última atividade do Projeto Terra Roxa em 2025, marcando o final dessa etapa, que girou em torno da cultura da mandioca, cultura para a qual a Comunidade tem grande aptidão e que possui importante potencial para geração de renda. O evento denominado “Troca de experiência comunitária e de produtos e sementes da agricultura familiar” foi realizado no dia 26 de novembro, reunindo 25 agricultoras e agricultores no salão da Igreja Católica. Juntamente com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Alto Xingu, relembraram os destaques do ano e conversaram sobre as experiências e aprendizados de cada morador. E culminou em um almoço coletivo onde as famílias levaram diferentes receitas feitas a base de mandioca para compartilhar com seus vizinhos e terminou com uma gincana para testar os conhecimentos sobre a produção de farinha.

A troca de sementes e mudas entre as famílias da Comunidade enriquece a variedade de espécies cultivadas no sistema agroflorestal. Nesse cenário, a mandioca tem um papel fundamental, auxiliando diretamente na recuperação das áreas de mata, na interrupção de seu processo de degradação. A acadêmica de Engenheira Florestal Juliana Brito, educadora popular pela CPT do Alto Xingu, explica que a planta pode ser aplicada em diferentes métodos de reflorestamento. “Tem a alternativa dos Sistemas Agroflorestais, que entre as espécies agrícolas, podem ser consorciada com as espécies florestais para recompor os passivos. A mandioca na fase inicial se adapta bem a esse tipo de consórcio. Então a comunidade pode estar recuperando os passivos ambientais através do reflorestamento, através dos Sistemas Agroflorestais.” Ela destaca que, enquanto impacta positivamente no reflorestamento, a cultura da mandioca também traz benefícios econômicos para as famílias agricultoras. “A comunidade consegue cultivar a mandioca e ao mesmo tempo conservar o solo e a água. Então dependendo da técnica que for adotada, a mandioca é uma alternativa que gera renda para a comunidade e não degrada. Ela ajuda a recuperar principalmente em estágio inicial.”

A equipe da CPT presente no local iniciou o encontro propondo uma reflexão sobre importância da terra, do trabalho coletivo e do respeito à natureza. Na sequência, os participantes rememoram as atividades realizadas durante o todo o período do projeto, destacando as técnicas que já conseguem implementar nos seus lotes. Por exemplo, a importância de analisar o solo para saber de que a terra necessita no momento e qual cultura mais adequada para aquele local. Alguns moradores citaram ainda o curso de produção de farinha, os dois intercâmbios promovidos pelo Projeto, onde aprenderam sobre associativismo e visitaram uma fábrica de polpas de frutas e uma casa de farinha, ambas em funcionamento. Vale lembrar que o Projeto Terra Roxa, em que pese as suas ações serem voltadas para o fortalecimento da agricultura familiar, é uma iniciativa de prevenção ao trabalho escravo. E a sua realização só foi possível porque o Ministério Público do Trabalho (MPT) acreditou nessa metodologia não convencional de enfrentamento a essa mazela social.

O auge da atividade ocorreu com uma conversa sobre a importância das sementes crioulas e seu uso nos lotes familiares, uma prática pouca difundida atualmente devido ao uso hegemônico das chamadas variedades de alto rendimento, resultando em perda da biodiversidade e na autonomia das famílias rurais. “Nesses momentos, podemos instigar para que a comunidade se veja como Guardiã da Floresta, valorizando assim as sementes e mudas que carregam, resgatam e preservam saberes tradicionais e ancestrais”, explica a educadora Juliana. “Enxergo essa prática como um movimento de luta e resistência a um modelo predatório que o agronegócio idealiza para a agricultura familiar. Pois quando entendemos que somos parte e não a parte do meio, começamos a valorizar a floresta nativa em pé”, destaca.

Em seguida, houve uma acalorada e divertida negociação entre as moradoras e moradores da Terra Roxa, enquanto trocavam entre si as diversas sementes e mudas de espécies nativas florestais e de frutíferas trazidas por cada um. “Foi momento de diálogo, aprendizado, conhecimento e distração. Além de poder adquirir algo novo para o seu plantio, trocar com seu colega ou vizinho plantas ou sementes que você compraria por um valor alto”, explica a moradora Leivania Pereira da Silva Costa. “Foi uma experiência maravilhosa, conheci sementes que nunca tinha visto. É importante conhecer frutas e sementes diferentes para plantar e cultivar em minha terra,” destacou a moradora Rayssa dos Santos Silva. 

Por sua vez, o agricultor Antônio Pedro Lourenço já está planejando as trocas para o próximo encontro. “A gente tem que conseguir algumas mudas um pouco diferentes das que a gente tem. Eu sou goiano. E lá [no Goiás] a gente tinha algumas coisas que hoje a gente não vê mais. Aí eu acho que a gente tinha que adquirir essas coisas que estão acabando para, nas próximas trocas de semente, a gente levar para voltar de novo”, sugere o Seu Antônio.

O encerramento do Projeto Terra Roxa foi marcado por um alegre momento de confraternização na Comunidade. Juntos celebraram a importância de cuidar da terra onde eles vivem, de preservar a floresta, as plantas, as águas e os animais. Celebraram a cultura popular e o saber dos seus ancestrais.