A moradora Linda Inês Alves de Souza é secretária da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Terra Roxa e mãe de dois meninos: Afonso (5 anos) e Enzo Gabriel (9 anos). O filho mais velho foi diagnosticado com autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), um fato que, isoladamente, já bastaria para tornar a sua criação ainda mais desafiadora – e educar uma criança é sempre um desafio. Soma-se a isso, a grande dificuldade de estrutura típica de uma comunidade rural, onde é virtualmente impossível ter acesso a profissionais qualificados – tanto pedagógicos quanto médicos – para atender as demandas específicas de uma criança com essa condição.
A agricultora afirma que seu filho Enzo enfrenta certas dificuldades para interagir com as outras crianças na escola, que o consideram estranho por seu comportamento e, algumas vezes, o tratam com apelidos ou até ofensas. Ela salienta que os professores e os pais dos outros alunos tentam orientá-los a tratar o menino com respeito, mas nem sempre obtêm o resultado esperado.
Diante desse quadro, a moradora relata que a ideia de fazer oficinas voltadas para as crianças causou um excelente efeito no comportamento do seu filho. Segundo ela, ver o filho se dedicando alegremente a realizar uma atividade coletiva, junto aos colegas de escola, foi muito marcante. “E ele tem muita dificuldade de brincar com outras crianças, interagir, ele tem muito problema com isso e dá muito trabalho. Então esse trabalho que a Carla [a oficineira Carla Menegaz] veio apresentar aqui com argila, ixi, foi a melhor coisa que aconteceu comigo no ano passado. Com todos nós aqui, na verdade. Eu creio que pra todos. Mas em particular comigo, mexeu bastante.”, destaca a mãe do Enzo Gabriel. Ela, inclusive, postou nas redes sociais uma foto dos meninos na oficina, acompanhada de uma legenda exaltando sua felicidade pelo momento. “Só quem é mãe atípica vai entender quando seu filho fica focado na aula sem intervenção. Tô feliz demais”, escreveu.
Conta ainda que o filho desenhar com tinta feita de argila foi um raro momento em que ele conseguiu se expressar e que ele menciona o evento frequentemente. “Eu falei: meu filho, seu desenho tá lindo. Assim, é o jeito do modo dele expressar. Ele expressou aquela felicidade que ele tava sentindo naquele momento. Foi um desenho meio peculiar, a vista de quem não tem conhecimento, entendimento dele. Mas para mim foi a melhor coisa do mundo, porque para ele segurar um pincel, um lápis, pintar uma coisa assim, se expressar, é muito difícil isso acontecer. Então, isso mexeu bastante comigo.” Por isso, Linda Inês deixa muito claro o quanto esse momento foi importante pra ela como mãe. “Essa foi a melhor coisa que aconteceu. Eu sou muito grata mesmo a vocês, a Deus, e a todos mesmo. Dinheiro nenhum acho que não pagaria o que eu sinto por dentro sobre essa questão que o meu filho fez, presenciou, teve esse contato. Porque é muito dificultoso ele ficar, assim, prestando atenção numa coisa. E eu vi, tem uns vídeos aqui também dele interagindo numa dança, cantando, mexendo na argila. Nossa Senhora, aquilo lá foi sensacional.”, explica a moradora da Terra Roxa. É necessário salientar que a comunicação com crianças autistas é sempre um desafio para os pais e professores. Por isso, obter resultados assim é algo a ser comemorado.
As oficinas beneficiaram inclusive a relação entre os dois filhos de Linda Inês. Ela conta que a roda de conversa com as crianças sobre o mundo, onde eles foram instigados a indicar os pontos bons e ruins da Terra Roxa, teve impacto positivo duradouro. Segundo ela, sempre que Afonso e Enzo Gabriel estão brigando entre si, eles lembram imediatamente a fala das mediadoras sobre a importância de conviver bem, de manter a união da comunidade e, então, finda o conflito.
Mas a secretária da Associação Terra Roxa não considera que as oficinas voltadas para as crianças foram benéficas apenas para seus filhos. Ela afirma que foi importante para todos os jovens da Comunidade. “Eu achei de grande importância, porque as crianças são carentes dessas coisas, de mexer com argila, de brincadeira, de autoconhecimento. São bem poucos aqueles conhecimentos das crianças sobre coisas, que tem muito a oferecer para elas, que é adequado para a gente representar para elas”, destaca Linda Inês. Ela sugere que sejam realizados novos trabalhos voltados para o público infantil, pois considera que isso é muito positivo para elas, chegando a afirmar que foi um dos movimentos mais inteligentes do projeto.
De acordo com ela, muitas vezes, as crianças têm dificuldades para aprender com as aulas teóricas. Atividades práticas, por outro lado, causam um impacto maior e mais duradouro. “Às vezes, a aula teórica, mesmo a gente falando e explicando, a criança, assim, às vezes não consegue, não tem aquela imaginação como que seria. E aí, através da Carla e da CPT, aí a criança teve, né? Sentiu como é a história, que teve a cultura da dança, as origens, as raízes”, explica. Além disso, salienta que a repercussão das oficinas manteve a atenção das crianças por um longo tempo. “Eu achei que foi muito importante que esse assunto rendeu aqui para as crianças. Porque da outra vez, logo em seguida, eu acho que foram dois, três dias que eu dei aula para as crianças, foi bem comentado. E ver a felicidade das crianças mostrando os desenhos que pintou, a tinta da argila, mostrando as pinturas lá dentro da sala.”
Atualmente, no entanto, Linda Inês segue lidando com o problema da falta de estrutura na região. Ela tenta conseguir uma mediadora pedagógica escolar para acompanhar seu filho, direito garantido a crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista durante o ano letivo. Porém, é muito difícil conseguir uma no local. Por isso, é possível que o filho precise ser transferido para outra escola. A mãe afirma já ter obtido todos os laudos exigidos pela supervisão da escola, mas não obteve retorno até o momento.
