Intercâmbio sobre associativismo entre comunidades da Terra Roxa e da Maguari

Percorrendo quase 200 quilômetros em estrada de terra, as trabalhadoras e trabalhadores da Comunidade Terra Roxa visitaram as produtoras de polpa de frutas da região da Maguari, em São Félix do Xingu. Apesar de ser um período de muita chuva, com muitos buracos pelo caminho, 18 membros da Comunidade fizeram uma viagem tranquila e com muita empolgação, saindo de casa antes das 6h da manhã rumo à sede da Associação das Mulheres Produtora de Polpas de Frutas (AMPPF). O encontro ocorreu no último sábado, dia 14 de dezembro, reunindo um total de 33 pessoas. Duas atividades foram realizadas em conjunto – um intercâmbio de experiências de organização camponesa e uma palestra formativa –, ambas tendo o associativismo como tema central.

A visita foi organizada pela equipe da Comissão Pastoral da Terra (CPT) como parte das atividades do Projeto Terra Roxa, apoiado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para conduzir a formação sobre associativismo, contou-se com a presença do professor e antropólogo Cristiano Bento da Silva, que leciona no curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), instituição que é parceira do projeto. O docente expôs os aspectos teóricos da prática associativista, abordando o histórico do associativismo desde sua origem até os dias de hoje, explicando como o processo de industrialização com o uso de máquinas fez com que os trabalhadores perdessem espaço e renda, criando a necessidade de se organizar, tanto em associações como cooperativas, para lutar pelos seus direitos. Traçou ainda um paralelo entre o contexto da Amazônia e o surgimento do associativismo em países como França e Itália. Além disso, respondeu às dúvidas dos presentes sobre o tema.

A anfitriã do encontro, a AMPPF, é uma associação muito bem organizada, que já existe há 12 anos e conta atualmente com 63 integrantes. O grupo possui uma fábrica própria para produzir a polpa de frutas, que é comercializada inclusive com a prefeitura de São Félix do Xingu, sendo usada na merenda das escolas do município. É um ótimo exemplo de como o associativismo funciona na prática e pode melhorar a renda das famílias. Por isso, se torna muito interessante a troca de experiências entre as agricultoras e agricultores da Terra Roxa e da Maguari, trazendo benefícios para as duas comunidades. “A palestra sobre associativismo e o intercâmbio com a AMPPF contribui muito para o desenvolvimento do projeto na Terra Roxa, pois ele traz a comunidade para ver, na prática, um empreendimento realizado por mulheres, onde estão conseguindo, através de sua mini-indústria, produzir um alimento de qualidade e também comercializar esse alimento com um valor agregado”, explica o técnico agrícola da CPT, Emanuel Castro, que acompanhou a visita.

A presidenta da AMPFF, Maria Josefa Machado Neves, explica que o grupo já havia realizado conversas com outras associações, incluindo trocas de sementes durante o Dia Internacional da Mulher, mas nunca havia tido uma experiência com outro grupo que está dando os primeiros passos para se organizar como ocorre agora. “E nós ficamos muito satisfeitos com tudo que aconteceu nesse dia, foi muito bom. A gente fica muito grato e feliz ao mesmo tempo com outras mulheres, lutando, buscando o seu próprio objetivo”, destacou Maria Josefa. Ela ainda acrescenta o quanto o desenvolvimento de uma associação formada por mulheres foi benéfico para as moradoras da comunidade Maguari e o quanto é positivo ajudar outras mulheres a fazerem o mesmo. “Então, o que nós temos, o que nós somos, a gente passou as experiências para elas e eu tenho certeza que elas vão conseguir também fazer uma boa associação, pois são pessoas bem esforçadas. Então foi muito bom, foi o primeiro intercâmbio que teve a respeito de pessoas virem para ver o que a gente fez, quem nós somos hoje, para se espelharem em nossa associação”, conclui a presidenta.

Além de conhecer a fábrica da AMPPF, os participantes conheceram também o viveiro onde são produzidas as mudas frutíferas e de essências florestais, que depois vão para reflorestamento e recuperação de áreas degradadas, o quintal produtivo onde são plantados acerola, cupuaçu, etc. e o apiário mantido por um dos moradores da comunidade. Tudo integrado no sistema agroflorestal. Uma das representantes da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Terra Roxa presentes, Tatiana Santos Oliveira, acredita que esse evento será uma influência positiva para a Comunidade. “A visita foi muito produtiva, aprendi muita coisa interessante. Tem muitas famílias interessadas em fazer alguma coisa parecida para a gente ter mais renda”. O técnico Emanuel concorda que essa experiência ajudará bastante no desenvolvimento da produção na Terra Roxa. “Eles puderam ver tantos desafios enfrentados pelas mulheres para conseguir sua fábrica, quais os caminhos elas percorreram, quais as dificuldades. E, com essa base, eles vão ter mais elementos para pensar em algo que seja viável para a sua comunidade”, finaliza.