Mulheres da Terra Roxa celebram o 8 de março

Eu sô uma Maria quarqué.
Uma dessas muié, qui vivi na roça,
qui viaja di carroça, di cavalo ou a pé.

Eu sô uma maria quarqué.
Dessas que acorda cedin, faz o bolo i o café, cuida da casa du quintá,
dus bichin dos animá, qui sustenta o brasí di pé.

– Fragmento do texto “Uma Maria Quarqué”, de Kennya Silva

No Dia Internacional da Mulher, as moradoras e moradores da Comunidade Terra Roxa se reuniram no salão da igreja evangélica para celebrar a data e discutir sobre o seu significado. Ao todo, 44 pessoas participaram do encontro, que incluiu também uma palestra sobre o empoderamento feminino e uma oficina de produção de geleia de fruta ministrada pelas visitantes da AMPPF, da região da Maguari, que também estiveram presentes.

A senhora Maria Ivoneide dos Santos Pereira – uma das moradoras mais ativas e presentes nas atividades do Projeto Terra Roxa – considera o Dia Internacional da Mulher uma data que precisa ser sempre celebrada, pois simboliza uma grande mudança na vida das mulheres. “Antigamente, as mulheres eram muito oprimidas pelos esposos ou em casa com os pais. E hoje, as mulheres são livres para trabalhar, para ter mais liberdade. Então, é uma data muito especial que eu acho para todas as mulheres. Hoje nós somos livres, podemos conquistar o que nós queremos ter. A gente hoje é advogada, pode ser uma professora. Pode ser o que a gente quiser na vida”, explica Maria.

O evento iniciou com a tradicional mística, que convidou os presentes a refletirem sobre a luta pelos direitos das mulheres, sobre o quanto já se conseguiu avançar ao longo dos anos e o quanto ainda falta trilhar. Lembrando ser necessário lutar intensamente sempre pela igualdade de gênero e que, apenas com a cooperação de todos, é possível construir uma sociedade melhor e segura para mulheres e meninas. A discussão ainda trouxe à tona a importância do estudo, da independência financeira e da construção de lideranças femininas.

Também foi recitada a poesia “Uma Maria Quarqué”, da professora, escritora e filósofa xinguarense Kennya Silva. Esse texto premiado internacionalmente descreve com muito orgulho a realidade das mulheres do campo, as muitas Marias que vivem no interior do Brasil, que buscam apenas ser respeitadas e tratadas com dignidade.

As crianças da Comunidade tiveram uma série de dinâmicas e conversas para refletir sobre o significado e a relevância dessa data, destacando a luta das mulheres por direitos e igualdade. Foram apresentadas algumas figuras históricas, como Frida Kahlo e Marie Curie, e também mulheres de referência dentro da própria comunidade. Além disso, as meninas e meninos foram convidados a pensar – por meio de atividades pedagógicas – sobre os estereótipos de gênero relacionados às tarefas domésticas e também sobre o que significa ser uma mulher.

Em outra atividade, esta voltada para o público adulto, quatro integrantes da Associação das Mulheres Produtoras de Polpas de Frutas (AMPPF) ministraram uma palestra explicando a importância da participação feminina na prática associativista. Elas relataram como as suas vidas mudaram com a associação e o quanto isso fortalece a comunidade como um todo. Além disso, a equipe da AMPPF realizou junto às mulheres da Terra Roxa uma oficina sobre a produção de geleia de cupuaçu com pimenta.

As participantes ficaram bastante satisfeitas com a oficina e acreditam que pode ser benéfica para a geração de renda das mulheres da Comunidade. “Ela deu uma perspectiva muito bonita para nós, explicou muitas coisas sobre os projetos, né? Incentivou a aproveitar nossas coisas, que nós aproveitemos a nossa terra. E o projeto delas é muito bom, dá para ganhar dinheiro, sim. Com tudo que nós trabalhamos todos juntos e unidos nesse projeto [Projeto Terra Roxa], dá para nós ganhar, sim. Podemos fazer com acerolas, que nós temos bastante aqui, de goiaba e outras coisas mais que ela ensinou, explicou tudo para nós. Dá para nós ganharmos nosso dinheirinho,” explicou dona Maria.

Esse tipo de oficina tem como objetivo auxiliar as mulheres da Comunidade a alcançar a independência econômica, uma vez que a geração de renda é um grande desafio para as mulheres do campo. Por isso, o Projeto Terra Roxa tem entre seus objetivos fomentar o empoderamento feminino. De fato, as atividades do realizadas até o momento contaram com sólida participação feminina. No total, 62,3% – quase dois terços – dos participantes das oficinas, palestras e encontros foram mulheres. Em algumas reuniões, essa parcela superou os 80%. Desta forma, é impossível ignorar o papel de protagonismo das mulheres na Comunidade.

A coordenadora de projetos do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Celma de Oliveira, que trabalha junto à AMPPF, acredita que o intercambio das mulheres de diferentes comunidades é fundamental e benéfico para todas elas. “Por meio de troca de experiências é possível gerar trabalho e renda para as mulheres da Terra Roxa. Nós do Imaflora seguimos alguns princípios e práticas que favorecem a trilha de sucesso entre as mulheres da AMPPF. Esta trilha envolve algumas ações como: engajar novas mulheres, formar novas lideranças, capacitar tecnicamente, desenvolver habilidades profissionais, beneficiar e empoderar”, salienta Celma. “Nosso conselho [para as mulheres da Terra Roxa] é acreditar no potencial do trabalho comunitário e coletivo. Aproveitar as oportunidades de cada reunião e encontro. Participar dos momentos de capacitação. Participar de projetos das organizações locais. Conhecer o potencial da comunidade – conhecer o local, trocar ideias, definir metas, articular parcerias e etc. E, notadamente, acreditar na sua capacidade como mulher do campo e protagonista da sua história e participar dos espaços de tomada de decisão, tanto na propriedade, quanto fora dela”, finalizou.